| Pega o Rolex
no seio, senão leva tiro
Motocicletas: símbolos de aventura
e juventude ou de transgressão criminosa?
Vai passando o Rolex, moça, disse o
motociclista. Apontou a arma para a janela do táxi
numa das principais avenidas engarrafadas de São
Paulo. Não tenho relógio nenhum,
respondeu a passageira, que acabara de aterrissar
no aeroporto de Congonhas. Passa, senão
leva tiro. Pode pegar logo o Rolex, taí no
seu seio. Atônita, ela tirou do sutiã
o relógio que ganhara do noivo e o entregou
ao ladrão.
Essa história aconteceu na semana passada
e me foi contada pelo taxista que conduzia a moça.
Não é um fenômeno novo. Antes,
olheiros nos aeroportos só identificavam
pastas com notebooks ou grupos de turistas estrangeiros.
Agora, eles também avisam os motoqueiros
assaltantes quando alguém esconde em público
um objeto de valor em sua roupa íntima.
O roubo desse Rolex não teria sido evitado
se estivesse em vigor no país a medida
de urgência sugerida pelo governador
do Rio, Sérgio Cabral: Vamos proibir,
por decreto, garupas em motos. Dessa vez,
não havia garupa, só piloto. Mas,
ao mexer na ferida, Cabral abriu um bate-boca
nacional. Um dos crimes mais em moda envolve duplas
de motociclistas: o garupa é quem saca
a arma. Na virada do Ano-Novo, o filho do ortopedista
Lídio Toledo, o Lidinho, de 35 anos, acabou
paraplégico depois de ser baleado por motoqueiros
bandidos. Na quarta-feira 9, no bairro carioca
da Tijuca, um empresário safou-se de dois
bandidos numa moto que o abordaram com pistolas
cromadas. Só fugiu porque seu Toyota é
blindado.
A OAB e o Denatran consideram a proposta de Cabral
inconstitucional. Alegam falta de autonomia do
Estado. O governador os chama de burocratas
de plantão. Os brasileiros se dividem.
Uns acham que proibir garupa é uma medida
tão inócua quanto a do marido traído
que decide tirar o sofá da sala. Outros
acham que a foto de Cabral sem capacete, na garupa
de um mototáxi na Rocinha, em campanha
em 2006, não lhe dá credibilidade.
Os motociclistas do bem acham um absurdo a proibição
eles levam na garupa namoradas, filhos,
irmãos. Usam a moto para lazer e trabalho.
A maioria defende um policiamento ostensivo, que
fiscalize motos irregulares e apreenda as roubadas.
Mas muitos cariocas adoram o estilo Cabral
radical. Têm medo dos garupas. O governador
do Rio tem um poderoso aliado: o prefeito de São
Paulo, Gilberto Kassab, também é
a favor de proibir carona em moto, e disse a ÉPOCA
que fará tudo para regulamentar essa lei.
Não só para reduzir assaltos. Kassab
quer dar um basta ao massacre de motoqueiros nas
ruas de São Paulo: são mais de 20
acidentes por dia, um morto por dia na pista,
fora os que morrem no hospital ou ficam inválidos.
Motos já simbolizaram rebeldia, aventura
e juventude transviada. Em Sem Destino (Easy Rider),
filme americano de 1969, Peter Fonda e Jack Nicholson
cruzam os Estados Unidos de moto e fumam maconha
em cena. Mais de 30 anos depois, o que parecia
transgressão é fichinha.
Motos de passeio, no Rio e em São Paulo,
derrapam em todo o tipo de irregularidade. Andam
na contramão, na calçada e nas passarelas.
Um enxame de mototáxis e motoboys, não
regularizados e destrambelhados, costura os engarrafamentos...
Easy Rider foi ovacionado em Cannes em maio de
1969. Hoje, as cenas de motos nas ruas brasileiras
estão mais para filme trash.
(Revista Época - 13/01/2008 - 13:17 | Edição
nº 504)
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