| Uma guerra
sobre rodas
Aumenta o número de crimes, acidentes
e mortes que envolvem motos. Reprimir os motociclistas
é uma solução ou um equívoco?
O sempre caótico trânsito paulistano
ficou ainda pior na manhã da sexta-feira
18. Cinco mil motociclistas, segundo as contas da
Guarda Civil Metropolitana, tomaram as ruas da cidade
para protestar contra as medidas anunciadas pelo
prefeito Gilberto Kassab dias antes. Se a
lei não mudar, São Paulo vai parar,
cantavam os motociclistas. Na tentativa de reduzir
o número de acidentes que envolvem motos,
a Prefeitura decidira impedi-las de circular nas
vias onde ocorrem mais mortes, as marginais dos
rios Tietê e Pinheiros. A medida desagradou
a quem anda sobre duas rodas muita gente:
a capital paulista tem hoje 652 mil motos em circulação
, e o número de vítimas dos
acidentes em que elas se envolveram triplicou em
três anos. Em 2003, foram 126 mortes. Em 2006,
380.
Além do caos no trânsito, as motos
estão no centro de outra polêmica.
O número de crimes com elas nas grandes cidades
aumentou. Um levantamento feito entre novembro de
2006 e janeiro de 2007 na capital paulista mostra
que 61,5% dos crimes contra o patrimônio são
praticados por motoqueiros. Na quarta-feira 16,
o coronel José Hermínio Rodrigues,
chefe da Polícia Militar na zona norte de
São Paulo, morreu depois de levar cinco tiros
à queima-roupa. Testemunhas dizem que o autor
dos disparos estava de moto, usava capacete e manteve
a viseira abaixada durante a rápida ação.
O crime foi mais um a manchar a imagem dos motociclistas
que não são bandidos e sofrem com
o preconceito de quem vê em cada moto uma
ameaça.
Há hoje 11 milhões de motos que
rodam no Brasil. Estima-se que neste ano, até
31 de dezembro, elas terão se envolvido
em 1 milhão de desastres, com um saldo
de 18 mil mortes. Para quem anda de carro no trânsito
carregado das grandes cidades, os motociclistas
tornaram-se o inimigo número um. Parado
no engarrafamento, o motorista vê com s
medo e desconfiança o mau comportamento
dos cachorros-loucos, como são
conhecidos os motoboys mais ousados. Eles parecem
surgir do nada, fazem ultrapassagens perigosas,
aceleram acima da velocidade permitida, arrebentam
retrovisores, furam o sinal vermelho, manobram
sobre calçadas e passarelas de pedestres.
A lista de infrações é longa
como a de mortes. Com os desastres, aumenta a
hostilidade de parte a parte. Quando um carro
tenta mudar de pista, é xingado. Mas
quando um motociclista resolve andar conforme
as normas, na frente do carro, o motorista também
não aceita, diz David Duarte Lima,
professor da Universidade de Brasília e
doutor em Segurança no Trânsito.
Para ele, enquanto trafegam por ruas e avenidas,
todos disputam o mesmo espaço, e essa competição
leva a uma agressividade permanente. A combinação
de engenharia inadequada, espaço exíguo
e pressa resulta em conflitos. Quando um
motoboy se fere, é comum que colegas se
juntem em bandos para fazer justiça com
as mãos, os pés e capacetes. Amassam
capôs, quebram janelas, agridem o indefeso
motorista, que não conta com a mesma solidariedade
por parte de seus pares de quatro rodas.
Os congestionamentos abriram caminho para o boom
de motociclistas nas grandes cidades, sobretudo
daqueles que rodam a trabalho, acelerando fundo
para resolver os problemas de gente apressada.
Os mesmos motoristas que reclamam dos motoboys
nas ruas são aqueles que recorrem a seus
serviços para pagar uma conta minutos antes
do prazo, buscar documentos que precisam ser assinados
com urgência ou entregar remédios
na casa de quem não pode ir à farmácia.
A rapidez dos entregadores sobre duas rodas é
tão bem-vinda que o Artigo 56 do Código
de Trânsito Brasileiro, que proibiria as
motos de transitar no meio de duas fileiras de
automóveis, foi vetado pelo então
presidente Fernando Henrique Cardoso. Dez anos
depois, essa liberalidade dada aos motoqueiros
gera acidentes e mortes.
Na semana passada, a Prefeitura de São Paulo
anunciou medidas para tentar conter o caos provocado
pelas motos no trânsito da cidade. O objetivo
é aumentar a segurança dos próprios
motociclistas. A Companhia de Engenharia de Tráfego
(CET) fará experiências para avaliar
se motoristas e motociclistas se comportam melhor
juntos ou separados. Entre 21 e 25 de janeiro, um
trecho de 2,4 quilômetros da Avenida 23 de
Maio, principal ligação do centro
da cidade com a zona sul, terá uma faixa
exclusiva para motos. Mas elas serão proibidas
de circular nas vias expressas das marginais dos
rios Tietê e Pinheiros, campeãs em
acidentes fatais com motociclistas. A pista
expressa mata duas vezes mais motociclistas que
a local, diz o presidente da CET, Roberto
Scaringella.
Os sindicatos e as associações
de motoboys são contrários à
restrição. Eles interpretam as medidas
como um enfrentamento. A manifestação
da semana passada não foi a primeira e
provavelmente não será a última.
Os motociclistas reclamam que estão sendo
tratados como bandidos e que apenas querem
trabalhar.
No fim do ano passado, a polícia de São
Paulo apertou o cerco às motos. Em apenas
três operações, foram presos
dez criminosos que estavam foragidos e 60 pessoas
em flagrante. Das 8.633 motos paradas, 90 foram
retidas.
Medidas pouco ortodoxas estão sendo testadas
em vários Estados. Em Porto Alegre, motociclistas
só podem entrar em postos de gasolina e
estabelecimentos comerciais com o capacete na
mão, mostrando o rosto. No município
de São Sebastião, em Alagoas, um
juiz decidiu proibir os motociclistas de usar
capacete. A idéia é poder identificar
criminosos. Segundo a Constituição,
porém, só a União tem a competência
para legislar sobre o trânsito e
o capacete é obrigatório por lei
porque salva vidas. A falta do capacete
aumenta em 40% a mortalidade em acidentes de moto,
afirma o s médico especializado em tráfego
Flavio Dutra Adura. Entre as idéias mais
extravagantes, chegou-se a propor o uso de capacetes
transparentes.
De todas as medidas anunciadas nos últimos
meses para reduzir a criminalidade atribuída
a motoqueiros, a mais polêmica é a
que proíbe a garupa. Na capital paulista,
o projeto, do vereador Jooji Hato, foi vetado pela
ex-prefeita Marta Suplicy, mas deve voltar à
Câmara em fevereiro. Kassab prometeu apoiar
a medida, mas recuou diante do protesto dos milhares
de motoqueiros, que pararam a cidade na manhã
da sexta-feira 18. Ex-diretor do Detran e um dos
autores do Código de Trânsito, o advogado
Cyro Vidal diz que, mesmo se for aprovada, a
lei poderá ser suspensa por medida cautelar
caso alguém entre com uma representação
no Tribunal da Justiça. E isso pode ser feito
por qualquer organização de motociclistas.
A idéia de proibir a garupa também
é defendida pelo governador do Rio de Janeiro,
Sérgio Cabral.
Na opinião de quem tem mo-to, o governo
deveria se preocupar mais com a fiscalização.
Somos favoráveis à realização
de operações para apreender motocicletas
sem documentação e motoqueiros sem
habilitação, diz Adriana Santamgelo,
diretora social do Moto Clube Anjos do Vento,
do Rio de Janeiro. A culpa da violência
não é nossa. Nós não
podemos ser punidos por causa disso. Na
enquete de ÉPOCA, 59% dos leitores se mostraram
a favor de proibir a garupa.
Especialista em segurança no trânsito,
o coronel da Polícia Militar na reserva
Milton Corrêa da Costa é a favor
da proposta de Sérgio Cabral. Segundo ele,
a proibição das garupas pode não
acabar com os assaltos, mas dificultaria a prática
de crimes no trânsito. Um motoqueiro
sozinho tem muito mais dificuldades de assaltar.
A eficácia da medida foi provada em Bogotá,
na Colômbia, afirma. Respondendo aos
críticos da medida, para quem o Estado
estaria legislando sobre questões que extrapolam
sua competência, o coronel diz que é
capacidade e competência dos órgãos
de segurança pública, sim, resguardar
o direito do cidadão de ter segurança
no trânsito.
Os adversários de medidas como essa argumentam
que proibir a garupa só deslocaria os criminosos
para outras formas de crime. Ao fazer isso,
o Estado abre mão de sua responsabilidade
e a joga sobre o indivíduo, diz Helio
de Moraes, pesquisador do Núcleo de Estudos
da Violência da Universidade de São
Paulo. Enquanto a proibição da garupa
é só uma idéia, na Câmara
Municipal do Rio de Janeiro os vereadores do DEM
Carlo Caiado e Átila Nunes Neto querem
regulamentar o uso da moto como instrumento de
trabalho. Hoje, como não há na cidade
uma legislação específica,
qualquer cidadão que tenha uma motocicleta
com a documentação em dia e habilitação
para pilotar pode trabalhar com entregas, sem
nenhum tipo de permissão especial. É
uma categoria com alto índice de acidentes,
e sempre relacionada a assaltos. Precisamos controlar
essa atividade. Os que estão dentro da
lei vão se enquadrar e os agentes de trânsito
terão legitimidade para deter os que não
cumpriram as regras, afirma Caiado.
Qualquer que seja a opinião sobre a mudança
das leis, as tragédias que a guerra do
asfalto produz poderiam ser evitadas se os motociclistas
respeitassem as leis de trânsito e pilotassem
de forma segura. Não faltam casos que sirvam
como exemplo. Às 19 horas do dia 10 de
agosto de 2007, o estudante Alexandre Rodrigues,
de 15 anos, atravessava uma rua próxima
a sua casa, num bairro de classe média
de São Paulo, quando foi atropelado por
um motoboy em alta velocidade. De acordo com testemunhas,
o motoboy fazia uma série de ultrapassagens
arriscadas e passou um sinal vermelho antes de
atingir Alexandre. O rapaz morreu na manhã
seguinte. Foi uma perda irreparável.
Só quem passou por isso pode entender a
dor de quem perde o filho, diz a mãe
de Alexandre, Maria Ignez, de 50 anos. Ela e o
marido, Antônio Rodrigues, professor universitário,
dizem planejar criar uma ONG que ofereça
cursos de reciclageme de direção
defensiva aos motoboys. Todos temos experiências
negativas com motoqueiros. Se você não
tem, com certeza um amigo ou parente tem,
diz Antônio, de 55 anos. A ONG seria uma
tentativa de frear a irresponsabilidade e a imprudência
dos motoqueiros. Antes das novas leis, os governantes
poderiam testar a aplicação rigorosa
daquelas em vigor.
(Revista Época - 18/01/2008 - 22:42 | Edição
nº 505 )
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a matéria na íntegra.
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